Auditoria Contábil: conceitos, objetivos e procedimentos

Um guia completo com as melhores práticas sobre auditoria contábil

30/Jun/2020
Contabilidade

O capitalismo como sistema econômico faz com que a Ciência Contábil seja de suma relevância para o sucesso e controle das transações e movimentações financeiras de empresas, companhias e instituições que sustentam o mercado mundial. 


Sabe-se que as relações econômicas envolvem credores e devedores, e, para salvaguardar o interesse de ambos, as informações divulgadas aos usuários das informações devem ser validadas por algo ou alguém, a fim de manter a confiabilidade das negociações, precisando assim, da área do conhecimento denominada de Auditoria Contábil.


Sobre o cenário brasileiro, as Normas Brasileiras de Contabilidade – NBC, direcionam a normatização acerca da conduta dos Auditores e do processo de Auditoria em nossa nação. 


Com o objetivo de emitir o relatório sobre a adequação dos procedimentos aplicados, o auditor deve planejar seu trabalho consoante as Normas Profissionais de Auditor Independente. 


Espera-se desse profissional conhecimento sobre a atividade econômica da entidade em que se audita, para que possua capacidade de julgar a relevância dos eventos, e extensão dos procedimentos a serem aplicados.


Conceitos e objetivos da auditoria 


De acordo com as Normas de Auditoria Independente das Demonstrações Contábeis – NBC T 11, a auditoria classifica-se com a área contábil caracterizada pelo conjunto de procedimentos técnicos que tem por objetivo a emissão de relatório sobre a adequação das Demonstrações Contábeis auditadas. 


Boynton, Johnson e Kell, em “Auditoria” escrevem que a auditoria trata-se de:  

“um processo sistemático de obtenção e avaliação objetivas de evidências sobre afirmações a respeito de ações e eventos econômicos, para aquilatação do grau de correspondência entre as afirmações e critérios estabelecidos, e de comunicação dos resultados a usuários interessados.”


Técnicas e procedimentos de auditoria


O trabalho do auditor classifica-se, basicamente, como uma revisão das práticas adotadas e informações divulgadas em demonstrações contábeis e financeiras, por parte da entidade. Deste modo, devido ao extenso escopo e movimentações de algumas entidades, seria impossível auditar a totalidade das transações. 


Neste contexto, a organização de seu trabalho leva em consideração a materialidade das informações apresentadas limitando seus testes por relevância e amostras a serem validadas.


Uma vez definida as áreas relevantes e as amostras de testes, chega-se a hora de aplicar os procedimentos. Os procedimentos de auditoria são o conjunto de técnicas que permitem a obtenção de evidências para fundamentar a opinião do auditor, dividindo-se em testes de observância e testes substantivos.

 

Testes de Observância

Tem por objetivo averiguar se os controles internos propostos pela administração da entidade são coerentes, e se, estão sendo posto em prática.

Testes Substantivos

Estão ligados a validação acerca da exatidão dados produzidos pelo sistema contábil da entidade, dividindo-se em testes de transações e saldos, e procedimentos de revisão analítica.

 

Ademais, listamos os principais procedimentos de auditoria:

  • Contagem física (comumente chamado de “Inventário”;
  • Confirmação com Terceiros;
  • Conferência de Cálculos;
  • Inspeção de Documentos;
  • Observação;
  • Reexecução;
  • Procedimentos Analíticos;
  • Indagação

 

Revisão de controle interno

 

A prática de controle interno dentro das entidades tem por objetivo fundamental a prevenção de erros e fraudes. Vale ressaltar que o sistema de controle é de responsabilidade da administração da entidade, estando o auditor submetido a análises, a fim de propor sugestões objetivas para seu aprimoramento, decorrentes de constatações feitas no decorrer do seu trabalho.


Diversos autores definem o controle interno como o conjunto de procedimentos, métodos ou rotinas com os objetivos de proteger os ativos, produzir dados contábeis confiáveis e ajudar a administração na condução ordenada dos negócios da empresa. 


Ademais, podemos afirmar que o sistema de controle interno compreende o plano de organização e o conjunto coordenado de métodos e medidas, adotados pela empresa, para proteger seu patrimônio, verificar a exatidão e a fidedignidade de seus dados contábeis, promover a eficiência operacional e encorajar a adesão à política traçada pela administração.


Ressalta-se que este sistema é subdividido em dois: Controles Internos Contábeis e Controles Internos Administrativos. Vamos ver abaixo:

 

Controles Contábeis

 

Compreendem o plano de organização e todos os métodos e procedimentos relacionados com a salvaguarda do patrimônio e propriedade de registros contábeis.

Abaixo, listamos exemplos de controles contábeis:

  • Sistemas de conferência, aprovação e autorização;
  • Segregação de funções (pessoas que têm acesso aos registros contábeis não podem custodiar ativos da empresa);
  • Composição de contas contábeis;
  • Arquivamento de documentos que comprovem as transações registradas pela Contabilidade;
  • Controles físicos sobre ativos;
  • Auditoria interna.


Controles Administrativos

 

Compreendem o plano de organização, métodos e procedimentos relacionados com a eficiência das operações voltadas para a política de negócios da companhia e, indiretamente, com os registros financeiros.


Exemplos de controles administrativos:

  • Análises estatísticas de lucratividade por linha de produtos;
  • Controle de qualidade;
  • Treinamento de pessoal;
  • Estudos de tempos e movimentos;
  • Análise das variações entre os valores orçados e incorridos;
  • Controle dos compromissos assumidos, mas ainda não realizados economicamente.


A implantação de controle interno promove maior credibilidade à entidade executora, uma vez que, manuais e práticas previamente organizados são instalados. Contudo, como todo e qualquer sistema é passível de erros, cabe ao auditor realizar atividades sobre este.


Em 1985, foi criado um comitê para se prevenir e evitar fraudes nos procedimentos e processos internos da empresa. O Committee of Sponsoring Organizations of the Treadway Commission – COSO é responsável pelo estudo dos fatores que geram a criação e elaboração de relatórios fraudulentos, bem como, é este Comitê que elabora recomendações para companhias abertas e seus auditores independentes.


A prática de controle vem ganhando espaço nas políticas internas das entidades, apresentando-se como uma oportunidade de negócio para contadores. A seguir estão listados os princípios fundamentais desta natureza de trabalho:

 

a) Responsabilidade: as atribuições dos funcionários devem ser adequadamente definidas e limitadas;

b)  Rotinas internas: através de manual, a empresa deve definir todas as suas rotinas;

c)  Acesso aos ativos: a empresa deve limitar o acesso dos seus funcionários, estabelecendo controles físicos;

d)  Segregação de funções: a mesma pessoa não pode ter acesso aos ativos e aos registros contábeis;

e)  Confronto dos ativos com os registros: estabelecimento de controles para que os ativos sejam periodicamente confrontados com registros;

f)  Amarrações do sistema: o sistema de controle interno deve ser concebido de maneira que sejam registradas apenas as transações autorizadas, por seus valores corretos e dentro do período de competência.

g)  Auditoria interna: verificação periódica do cumprimento do que foi determinado;

h)  Custo x benefício: O custo do controle interno não deve exceder seu benefício.

i) Limitações do controle interno: estes limites relacionam-se, basicamente, à existência de conluio de funcionários, funcionários não instruídos adequadamente sobre as normas internas, e, por fim, funcionário negligentes.

 

Papéis de trabalho

 

O auditor deve colher elementos comprobatórios suficientes a fim de apoiar o seu relatório sobre as demonstrações contábeis (balanço patrimonial, demonstração do resultado do exercício, demonstração das mutações do patrimônio líquido, demonstração dos fluxos de caixa, demonstração do valor adicionado e notas explicativas). 


Com a finalidade de atender a essa norma, os auditores elaboram papéis de trabalhos que representam o registro de todas as evidências obtidas ao longo do serviço de auditoria.


Attie em seu livro “Auditoria: Conceitos e Aplicações”, de 1984, traz a definição de papéis de trabalho como “o conjunto de formulários e documentos que contêm as informações e apontamentos obtidos pelo auditor durante seu exame, bem como as provas e descrições dessas realizações, os quais constituem a evidência do trabalho executado e o fundamento da sua opinião.” 


Após o término do trabalho, revisam-se os papéis para garantir que o serviço foi executado de acordo com o previsto em norma. Ao revisá-los, o auditor assume a responsabilidade de que foram cumpridas as normas e que o objetivo do trabalho foi alcançado.


Vamos para a prática? Se você tem curiosidade de ingressar nessa área, ou iniciar a prestação desse tipo de serviço, é interessante que já comece o processo de treinamento. Como auditora, indico sempre as análises relativas às contas de resultado de uma organização.


Testes de receitas, despesas e custos


O teste dessas transações consiste em o auditor verificar se os valores foram registrados dentro do regime de competência, se foram aprovados, se estão de acordo com a natureza dos negócios da companhia, se existe documentação suportando a operação e se a classificação contábil foi adequada. 


Adicionalmente as receitas são testadas para subavaliação, ou seja, o auditor parte do documento para a razão geral, enquanto as despesas e os custos são auditados para a superavaliação, o que significa que o auditor deve partir da razão geral para o documento. (Almeida, 2012)

 

Testes das Receitas

 

Os testes relativos às contas de receitas são definidos com base na natureza da transação que gerou esse benefício à entidade. Diante disso, a forma como o auditor irá aplicar seus procedimentos varia. 


Por exemplo, ao auditar as receitas de empresas de construção civil é indispensável a análise de boletins de medição de obras, orçamentos etc. De forma geral, são solicitados os documentos que formalizam e comprovam a ocorrência da movimentação (notas fiscais, relatórios de faturamento, boletos emitidos), analisa-se o processo de contabilização e o somatório dos valores relacionados.

 

Testes das Despesas e dos Custos:

 

Para auditarmos esses dois grupos de conta, é necessário que ocorra uma segregação entre estes dois grupos contábeis, que já vêm definidos na estrutura da Demonstração do Resultado. 

Posterior à fase de análise, é salutar que o auditor avalie:

  • Despesas que possuem material e relevante com as contas do balanço patrimonial;
  • Os controles e registros das aquisições de matérias-primas e serviços;
  • A formação do custo de vendas;
  • A composição tributária da organização, assim como a sua conformidade as leis tributárias do país;
  • Os registros contábeis de Folha de Pagamento;
  • Outras despesas e gastos gerais que apresentarem materialidade e relevância.


Para a auditoria de aquisição de matérias-primas e serviços é relevante que o profissional busque conferir o valor selecionado no registro na documentação comprobatória, atentando-se para a autenticidade do documento; conferir a nota fiscal do fornecedor, juntamente a sua cotação, a fim de evidenciar se o menor preço foi o escolhido; verificar adequação contábil do registro; verificar se os encargos registrados na nota estão de acordo com a natureza da transação e seus valores, devidamente, calculados.


Os custos de vendas estão interligados às movimentações ocorridas nas contas de estoque. Sendo assim, definimos que as entradas e os saldos inicial e final dos estoques são testados diretamente para superavaliação e indiretamente para subavaliação, por ocasião da auditoria em outras contas do balanço patrimonial e demonstração do resultado do exercício.


A fim de averiguar a fidedignidade dos saldos apresentados acerca das despesas com tributos, é relevante aplicar os seguintes procedimentos de auditoria:

  • Verificar se estão de acordo com a legislação vigente;
  • Conferência dos cálculos;
  • Verificar escrituração nos livros fiscais, quando aplicável;
  • Inspecionar guias quitadas.


Sobre os testes de auditoria relacionados às despesas com folha de pagamento, é preciso que o valor contabilizado na razão seja confrontado com o resumo da folha de pagamento, deve-se também atentar para o somatório dos valores pagos, com o intuito de validar os saldos apresentados.

 

Vale ressaltar, que é importante que sejam feitos testes analíticos, para perceber se os valores de salários a pagar no resumo da folha, foram pagos da forma correta a seu respectivo funcionário.


Outras despesas e gastos gerais, materiais e relevantes são testados com base na verificação da classificação contábil da transação, inspeção da documentação comprobatória da movimentação, e deve-se observar se o registro da referida despesa está em observância ao Princípio da Competência.


Neste artigo, os principais conceitos da Auditoria Contábil foram listados, assim como as principais técnicas e procedimentos.


O intuito foi de evidenciar como o trabalho do auditor é colocado em prática, em meio a um universo de diversos números. O atual cenário econômico mundial, o crescimento das empresas, e a rotatividade das transações, traz à tona a necessidade da auditoria externa. 


Anteriormente, esta natureza de trabalho encontrava-se vinculada a obrigatoriedades normativas, entretanto os CEO’s e líderes da atualidade enxergam na contratação desses serviços uma forma de aprimoramento de suas práticas internas, assim como uma validação de sua imagem perante a sociedade.

 



Catarina Amaral

Contadora e consultora, mestranda em Contabilidade pela Universidade Federal da Bahia, graduada pela mesma instituição de ensino, digital influencer contábil, palestrante e membro das comissões de normas de auditoria do CRC-BA e Jovens Lideranças. Apaixonada pela disseminação de conteúdo e pela formação de contadores gestores e engajados.


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